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'Dizer qual cenário criado por IA dará resposta precisa ainda não é possível', diz professor da NYU

Tecnologia, no entanto, vem ajudando a fazer simulações complexas, unindo fatores macroeconômicos e mercado financeiro

22 dez2023 - 09h10
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Os avanços da inteligência artificial (IA) generativa permitem criar e simular uma grande variedade de cenários econômicos e financeiros. Mas a tecnologia em seu atual estágio é limitada, como explica Carlos de Oliveira, professor de Data Engineering da Universidade de Nova York (NYU). "Dizer qual cenário vai dar uma resposta com o nível de precisão que você gostaria ainda não é possível. Estamos muito longe disso", afirmou Oliveira. "O que dá para ter hoje usando essa ferramenta, com toda a honestidade, é algo muito longe do que um investidor gostaria de ter."

As fronteiras continuam a se expandir, no entanto. E não faltam recursos para isso. A expectativa é a de que o mercado de IA generativa em finanças ultrapasse US$ 27,4 bilhões até 2032, quase 20 vezes o valor de 2022, de acordo com o relatório recente da consultoria MarketResearch. Biz.

Tal potencial requer regulação por parte do Estado, acredita Oliveira. "A questão é essencialmente política e esse debate precisa ser feito", diz o professor da NYU. "No Brasil, há pessoas que podem construir o arcabouço tecnológico para executar essa regulação." Confira, a seguir, trechos da entrevista:

É possível prever cenários econômicos por meio da IA generativa? De que forma isso pode ser realizado?

Não é possível prever, mas é possível gerar cenários. Você gera através de inteligência artificial uma imensidão de cenários e, a partir disso, usa cálculos matemáticos que existem há séculos.

Trazendo para um exemplo prático, há risco de recessão nos Estados Unidos em 2024. É possível usar IA para saber se essa recessão vai acontecer de fato? Se sim, daria para antecipar como ela impactaria o Brasil? Dá para ver todo esse contexto por meio da inteligência artificial?

Conseguimos fazer afirmações como: "Existem evidências estatísticas de que 2024 vai ser pior do que 2023 nos Estados Unidos". Dá para controlar de forma razoável a geração de cenários através de inteligência artificial generativa. Agora, dizer qual cenário vai dar uma resposta com o nível de precisão que você gostaria não é possível. Estamos muito longe disso. O que dá para ter hoje usando essa ferramenta, com toda a honestidade, é algo muito longe do que um investidor gostaria de ter. É relativamente fácil dizer que 2024 vai ser muito duro nos Estados Unidos e o que acontece na economia americana obviamente tem impacto no Brasil, mas se a pessoa for honesta do ponto de vista intelectual, não dá para ir muito além disso.

De que forma a inteligência artificial se diferencia dos outros métodos mais tradicionais de análise desses cenários?

Antes da IA, a gente conseguia fazer simulações de coisas muito pontuais. A gente poderia simular qual seria o valor do ativo da Petrobras para os próximos 30 dias usando, por exemplo, um (modelo de previsão) chamado de Simulação de Monte Carlo, que é um dos mais conhecidos. Mas a gente não conseguia fazer a combinação de várias ações com diversos cenários macroeconômicos, qual seria o efeito incluindo os ativos de outras empresas, o crescimento do PIB, a situação do emprego no Brasil e por aí vai. Hoje, com a inteligência artificial generativa, a gente consegue simular cenários muito complexos e que incluem as correlações entre os diversos cenários da economia.

Se um grande número de participantes do mercado financeiro segue padrões de comportamento em "manada", como estabelecer os riscos e os elementos éticos levando em conta esse cenário?

Essa é uma discussão muito grande. Há bancos de investimento muito conhecidos que usam esse mecanismo. Eles tomam posição em alguns instrumentos financeiros e depois forçam um efeito de manada porque têm prestígio. Assim, propagam aquela posição que eles montaram como sendo a melhor de todas. O mercado segue esse efeito de manada e, quando o movimento está no auge, essas instituições desmontam suas posições com lucro. Isso existe há tempos. Só que agora são usados algoritmos de inteligência artificial. Certos grupos econômicos conseguiram através de um processo de concentração de renda e de monopolização de determinadas atividades um poder que não deveria ter sido dado lá atrás. Quer dizer que a regulação deveria ser mais eficiente e, hoje, é muito difícil desmontar isso.

O desenvolvimento e o uso de inteligência artificial muitas vezes provocam debates éticos. Deveria haver alguma regulação? Essa regulação dependeria de cada país ou poderíamos imaginar algo global?

É uma questão global e a Europa é a região em que esse debate está mais avançado. Mas, dado o contexto geopolítico atual, não vejo como viável uma regulação global. Há um debate importantíssimo para ser feito sobre a utilização de dados que pertencem a todos nós para que se possa, enfim, criar regras e vender produtos. Isso depende muito menos de questões tecnológicas e muito mais de política. Evidentemente, grandes instituições querem o mínimo de regulação possível. No Brasil, há pessoas que podem construir o arcabouço tecnológico para executar essa regulação. A questão é essencialmente política e esse debate precisa ser feito.

Com reportagem de Diane Bikel, Geovani Bucci, Iraci Falavina, Michelle Pértile, Rafaela Souza e Rogério Júnior

Estadão
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