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22bet - Festival na zona sul de SP marca 20 anos da morte de Sabotage

#TributoAoSabotage reúne diferentes gerações para homenagear o rapper na Área de Lazer Água Espraiada, parque construído onde foi seu lar

24 jan2023 - 15h48
(atualizado às 16h55)
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Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Não choveu nas Espraiadas nem a polícia ficou no pé, como rimou Sabotage, há mais de 20 anos. O sol forte bateu os 30 graus (sem sombra), mas não afastou o público que cobriu o gramado da Área de Lazer Água Espraiada, na zona sul de São Paulo, onde já foi a Favela da Rocinha paulistana. De criança brincando no parquinho a jovens que levaram cadeiras de praia para aproveitar o espaço, a 17ª edição do Tributo ao Sabotage reuniu fãs ávidos e adolescentes que não conheciam a trajetória de um dos maiores nomes do rap nacional e cuja morte, em 24 de janeiro de 2003, completa 20 anos nesta semana.

Após um hiato de dois anos devido à pandemia, o evento voltou com uma composição diferente, a começar pela duração: os shows foram divididos em dois dias, 21 e 22 de janeiro, com 10 artistas. O Núcleo de Hip Hop da Secretaria Municipal de Cultura estimou um público de 55 mil pessoas no evento.

A trancista Barbara Silva, 36 anos, saiu de Carapicuíba (Grande São Paulo) com a família para prestigiar o evento e comemorar o aniversário do marido, Pedro Vinicius, que completava 35 anos no primeiro dia de apresentações. “Eu fui no enterro do Sabotage. Lembro que estava com meus primos vendo TV quando saiu [a notícia]. Foi um baque muito grande porque a gente era muito fã dele”, lembra ela.

O casal levou a filha Olívia, 8 anos, que brincava de skate entre um show e outro. “Eu trago ela para mostrar como nossa realidade é simples mas tão importante quanto outras”, prosseguiu. A criança, tímida, disse que estava gostando das músicas. “O disco de 2000 [Rap é Compromisso] ela sabe de trás para frente”, brincou Pedro. “Falou rap, é Sabotage e Racionais”.

Filho do rapper, Wanderson Sabotinha, 30 anos, cantou o clássico Rap é Compromisso! ao lado de Rappin’ Hood, 51, e destacou que nenhum “vírus maldito” pode matar a memória de Sabotage. “Pra mim, não é só uma homenagem, um tributo, eu perdi uma pessoa que faleceu 20 anos atrás de uma forma trágica e nem eu como filho esperava. A data 24 de janeiro de 2003 não é uma data legal para mim porque toda a vez que fecho o olho e vou dormir, eu lembro dele”, contou à Ponte. “Eu e a Tamires [irmã] estamos aqui para manter o legado dele”.

“Sabotage era um cara diferenciado e que é cultuado até hoje”, afirma Rappin’ Hood, sempre presente nas homenagens ao seu parceiro de caminhada. “Se lançarem uma música dele hoje, as pessoas vão saber e para mim é uma honra estar aqui todos os anos”.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

O tributo contou com apresentações não só de nomes com uma longa trajetória no rap nacional, como ele, Negra Li e DBS Gordão Chefe, mas também de uma geração mais nova e de estilos diferentes, incluindo o trap e o funk. 

Rappin’ Hood aponta que trazer novos artistas, como Major RD, Don L, MC Hariel, Hyperanhas, MC Ig, Veigh e Tássia Reis, foi uma forma de aproximar ainda mais os jovens das periferias. “Nós percebemos que a comunidade estava pedindo”, explicou.

A parceria com a Prefeitura de São Paulo, ao incluir o tributo na programação do aniversário de 469 anos da cidade, também ajudou. Para Aline Torres, secretária municipal de Cultura, os paulistanos acabam recebendo dois presentes. “O tema deste ano é ‘O mundo se encontra aqui’ e quando a gente fala de mundo, a gente fala de olhar para dentro e você tem o Sabotage, que foi um cidadão daqui da zona sul”, afirma. 

“Quando a gente consegue fazer esse tributo com quem de verdade faz o rolê, o Hood, a Negra Li, que são os contemporâneos e estão levando a missão do rap hoje, e traz o Hariel, o Don L, que é uma galera jovem, a gente consegue trazer um público jovem também e consegue fazer com que essa geração nova do rap conheça e reconheça os elementos contemporâneos do Sabotage.”

A rapper Tássia Reis, 29, que se apresentou no segundo dia do evento, concorda. “O Sabotage tem esse ar fresh, esse ar jovem, um artista irreverente, fez filme. Infelizmente, nunca pude assistir um show porque eu era muito nova quando tudo aconteceu. Um dos legados dele que eu me baseio é essa irreverência e versatilidade para dialogar com outros sons. Faz parte das novas gerações elevar e reconhecer o excelente trabalho e a abertura de portas das gerações passadas”.

Por outro lado, a atualidade e identificação nas letras do Maestro do Canão também foram pontos unânimes entre o público, em uma sociedade com ainda muita desigualdade e racismo a combater. “O Sabotage é um dos caras que têm uma grande importância para todos nós que somos do rap e para todo o brasileiro que pensa em mudar o país”, aponta o rapper Don L, 41. “É um cara que foi vítima do extermínio da população negra e periférica do Brasil e conseguiu, por mérito próprio, realizar alguns dos seus sonhos em vida que sempre foram duramente reprimidos porque, se fosse pelo script do que é ser um jovem negro periférico no Brasil, ele não teria conseguido e ainda assim conseguiu chegar muito longe e inspirar todos nós”.

O barbeiro Wesley 20, saiu da comunidade de Paraisópolis, na zona sul, para prestigiar as homenagens e se divertir com os sons dos rappers Negra Li, Don L e MC Hariel. “Eu escuto rap desde criança e um dos primeiros que eu escutei foi o Sabotage porque veio de um irmão mais velho. Ele é uma inspiração para muitos jovens pretos de periferia porque ele procurou no rap a sua redenção ao sair do crime. Ele, um homem preto, de periferia, poderia ter sido só mais um, mas não foi”.

O pintor Paulo Marcelo, 39, que mora no centro da capital, conta que é “um seguidor do rap nacional” desde os 14 anos e por isso tatuou nas costas o que para ele é mais do que gênero musical. “O rap é o que me incentiva a não beber, a não usar droga. A palavra do Sabotage evita crime porque na periferia você não tem para onde ir, já morei em barraco, em favela, e ver onde ele chegou… Por isso gosto muito da palavra dele”.

Tanto para Tássia Reis como para o rapper DBS Gordão Chefe, 46, o que mudou nesses 20 anos foi o acesso a alguns recursos. “O rap que se formou dentro das favelas, das comunidades, vem para denunciar, mas principalmente para alertar, para fazer você saber que tem direitos e deveres e o Sabotage fez isso muito bem”, explica DBS. 

“Hoje, estamos em um momento onde a gente tem, sim, desigualdade e continua com vários problemas, mas as pessoas estão muito mais ligeiras. As pessoas sabem do direito de ligar um celular e falar ‘aquilo tá errado, eu vou registrar’”, aponta ele, por exemplo, sobre casos de violência policial. “O rap fez isso: conscientizar as pessoas e mostrar que elas estão no comando”.

As primas Kauany Maciel, 14, e Nathalia Barreto, e a amiga Nicole Souza, ambas de 15, saíram do Grajaú, no extremo sul, para assistir o show do MC Hariel, que dentre seus sucessos, tem uma parceria póstuma com Sabotage intitulada Monstro Invisível (https://youtu.be/QIQ4faOA54E). Hariel fez o show mais cheio, com direito a crianças e adolescentes ao final furarem o bloqueio que dividia o palco do público para tentar chegar perto do artista.

Entre as três meninas, existia a divergência em saber sobre quem era o homenageado do evento. “Minha mãe e meus tios sempre ouvem Sabotage, então já está na cultura da família”, conta Nathalia que, assim como as outras, estavam na Espraiada pela primeira vez. “Eu não conhecia Sabotage”, revelou Nicole, com um sorrisinho envergonhado.

Elas destacaram a importância do acesso à cultura. “Acho que eventos como esse são bons porque tem várias pessoas da periferia que não têm dinheiro para ir em shows”.

“Ver artistas assim cantando para gente que nem sempre tem dinheiro para ir é maravilhoso”, celebrou Kauany. “Acho uma ótima oportunidade conhecer mais a cultura e a história do local”, completou Nathalia.

Por isso, DBS aponta que “Sabotage veio para fazer pontes, não quebrá-las. É o que ele representa: pontes. Pontes pelo coração, pela arte, por tudo. É esse o meu irmão Sabotage”.

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